Ela chegou, e os ventos da estação mais charmosa do ano fizeram as flores desabrochar também no outside. Mas nem sempre este mar foi assim, tão florido. Quem vê o line-up cada vez mais colorido, seja por biquínis, wetsuits ou o esmalte cintilante que irradia na remada, não imagina o cenário precário que as surfistas profissionais têm vivido. Enquanto o freesurf parece estar em ascensão, inclusive por parte da mídia, o circuito profissional carece do empenho de nossas guerreiras para voltar à vida.

Hoje, os programas de TV têm se mostrado uma vertente para as atletas, mas infelizmente as surfistas parecem ser estereotipadas, tramitando por uma linha tênue entre beleza e performance. “Acho isso triste pois eu realmente acredito na beleza plural de cada mulher. Acho que cada tipo físico tem um universo lindo para abordar. Olha a Carissa Moore e a Tyler Wright por exemplo? Elas têm outro estereótipo e os patrocinadores delas respeitam sua natureza e usam o que têm de melhor”, ressaltou a jornalista e fotógrafa Manoela D’Almeida.

O cenário atual está explícito: grande parte das meninas que está na mídia, com seus programas, consegue patrocínio com mais facilidade do que as meninas que estão focadas exclusivamente em competições, e se veem escondidas pela falta de incentivos. Assim, o desafio de seguir em frente torna-se maior. Mas por que essa diferença? Por que não incentivar, por exemplo, a Silvana Lima (atual campeã brasileira de surfe profissional)? O surfe feminino merece ser reconhecido como um todo, pelo trabalho de todas as nossas surfistas, tanto por aquelas que optaram pelo freesurf e estão arrasando na frente das câmeras quanto pelas que dão a vida pelo esporte e sonham ser campeãs mundiais.

“Ficamos esquecidas por um bom tempo e hoje ainda nos deparamos com esta crise. Mas acredito na força de vontade, que viemos ao mundo para retribuir o que nos foi dado independente da área que atuamos e isto não tem acontecido por grande parte das surfwear brasileiras. Isto não significa que precisamos esquecer nossos sonhos, pois com a união das atletas e de pessoas realmente com vontade de fazer a diferença, as coisas estão voltando a acontecer” – Suelen Naraisa, bicampeã brasileira de surfe.

Um hiato de quatro anos arranhou os sonhos de garotas que desejavam subir no pódio. No meio desta lacuna, víamos os meninos do Brazilian Storm brilhar. Suas performances ganhavam forma, conteúdo e títulos, enquanto as meninas pareciam remar contra a corrente em águas brasileiras. Campeonatos perdiam suas fórmulas sem o apoio de patrocinadores, fazendo as meninas desacreditar do tal conto de fadas: viver do surfe.

“Acho que as meninas que hoje resolvem se aventurar nas ondas, estão muito mais focadas em uma busca pessoal, e de repente com o sonho de ter um programa de televisão, do que ter o sonho de ser uma campeã mundial”, destacou Manoela. “Dependemos bastante dos nossos representantes, como associações e federações, pois um atleta vive de competições para se motivar”, completou nossa bicampeã, Suelen.

Em tempos de crise, não foram apenas as garotas que viram o circuito brasileiro extinguir-se. Foram dois anos assistindo a ondas quebrarem sem levar nenhum talento em sua crista. Ninguém pôde erguer os braços e soltar o grito de campeão brasileiro. Nem o SuperSurf resistiu ao cenário nacional.

Na visão da Manoela, “o surf masculino colhe hoje frutos de uma geração anterior. Eles também ficaram sem circuito nacional. No entanto, eles têm ídolos fortes como o Medina, o Mineiro, o Toledo, enfim, uma geração que enche o Brasil de títulos”. E eis que vimos, em 2014, Medina ecoar o grito libertador em solo havaiano, jogando os frutos de esperança em nossa terra tupiniquim. Só precisávamos regá-los e esperar que florissem.

E os brotos começaram a aparecer para o surfe feminino com a chegada da primavera, em 2015, quando voltamos a ter uma campeã brasileira, a catarinense Jacqueline Silva. O campeonato rolou em uma única etapa, disputada em Ubatuba, e sem a influência do surfista profissional Wiggolly Dantas e sua família, teria sido mais um ano de silêncio. Em setembro de 2016, a etapa teve sua segunda edição, novamente com o apoio dos Dantas.

O Campeonato Brasileiro Wizard Surf Feminino não nos trouxe apenas novas campeãs, fez brotar novos talentos e instigou o antigo sonho de nossas garotas. “Eu, mais do que ninguém, quero a volta das competições femininas no Brasil. Sou atleta e agora também estou iniciando como treinadora. Não aceito este momento que estamos passando pois vínhamos do maior circuito nacional do mundo e por alguns anos chegamos a zero. Agradeço muito meu irmão (Wiggolly Dantas) por acreditar em nós e nos apoiar. Acredito muito nesta nova geração e por isso tenho lutado junto com a minha família para reerguer nossa modalidade”, anunciou Suelen.

E um novo jardim já está florescendo. A atleta de 13 anos da Guarda do Embaú (SC), Tainá Hinckel, é a atual campeã brasileira sub 18, o que nos faz acreditar, sim, no futuro do esporte. Patrocinada há cerca de seis anos, surfe trips recheiam a agenda de Tainá, que também prepara o corpo com muito treino funcional. “O surfe feminino está passando por mais um ano complicado, porém, para me manter bem dentro das competições, tenho participado de campeonatos internacionais e campeonatos contra os meninos, no Brasil”, revelou a catarinense.

Tirando suas próprias conclusões, você pode imaginar qual o maior sonho de Tainá? Ela responde: “ser campeã mundial. Sei que será bem disputado, mas eu realmente amo o que faço e espero estar bem preparada daqui a alguns anos para fazer bons resultados em uma carreira profissional”. Com as sementes voltando a ser regadas, muito em breve veremos o mar cheio de rosas.