Foram dias nostálgicos na Joaquina. Ao avistar a praia, logo de cara um palanque azul com um shaka amarelo estampado no meio vibravam suas cores. Era 1986? Não, algo havia mudado. Alguma coisa estava estranha. Os biquínis não eram mais asa-delta. Os long johns haviam perdido seu fluorescente. As pranchas eram menores e os surfistas, bem, os surfistas voavam em suas pistas de decolagem. Realmente, se passaram 30 anos e muita coisa mudou, mas a essência, essa permanece a mesma.
Primeiro de novembro de 2016. Depois de três décadas, o Hang Loose Pro Contest volta a rolar em Santa Catarina. O palco principal, mais uma vez, eram as esquerdas e direitas da Joaquina, que liberavam suas paredes para surfistas de 22 países. Em jogo, o QS 6000, oferecendo pontos preciosos para o ranking. A expectativa era de praia lotada e ondas perfeitas, como aconteceu em 1986, quando o evento abriu as portas do Brasil para o circuito mundial.
Idealizado pelo catarinense Flávio Boabaid, o Hang Loose Pro Contest fez história. Mas o que, de fato, mudou de lá pra cá? “Eu estava conversando com o Al Hunt, tour manager do QS, que estava comigo no primeiro dia do Hang Loose em 86, e logo depois que começou a primeira bateria, eu perguntei a ele: ‘e ai, o que mudou pra você?’. Ele disse ‘há 30 anos, a gente tinha que mandar um monte de gente fazer um monte de coisas, se a gente não mandasse não iria estar pronto. Hoje, todos os setores estão com pessoas muito profissionais, todos muito bem preparados’. Então, hoje o campeonato anda de forma tranquila, como se tudo estivesse no automático. Me orgulho muito disso, de ter preparado muita gente, não só juízes, como o pessoal da área de beach marshall, pessoas técnicas”, confessou Boabaid.
Esse evento, em 86, foi um divisor de águas para o surfe competição, uma era de ouro, bem como o logo da Hang Loose que brilhava na praia. Diversas inovações foram implantadas, gerando uma nova visão de organização dentro e fora da água. “Implantei várias coisas no circuito como a área vip para os surfistas, específica para eles; área técnica para a mídia, onde tem a sala de imprensa, gratuita, antes não tinha e era uma fortuna, o governo bancou isso; a papeleta de julgamento classificada, foi eu que desenvolvi e implantei; então muita coisa saiu daqui, da Joaquina”, informou Flávio.
Já para o diretor geral da WSL na América do Sul, Xandi Fontes, o evento “atingiu exatamente seu objetivo”. E se tem uma palavra que define o Hang Loose Pro Contest 2016, ela é “celebração”. “O que a gente conseguiu alcançar foi uma celebração de um evento icônico, histórico, que colocou Floripa e Santa Catarina no cenário do surf mundial. Graças a Deus conseguimos reviver um evento com a praia lotada todos os dias, um público maravilhoso, torcendo pelos atletas, dias bonitos, boas ondas e uma cobertura incrível. O retorno de mídia, o retorno que evento trouxe para a cidade é muito significativo também. É para mostrar que o esporte da nossa cidade é o surf”, concluiu Xandi, com o sentimento de dever cumprido.
E se estamos falando em celebração, nada como dar continuidade a ela, pois segundo Xandi “a ideia, com certeza, é repetir o Hang Loose no ano que vem e quem sabe até aumentar para um QS 10.000”. Que o sonho siga vivo, pulsando essa energia contagiante do Hang Loose Pro Contest em águas catarinenses. Agora, que tal descobrir quais foram as mudanças mais significativas nos últimos 30 anos? A dupla, Flávio Boabaid e Xandi Fontes nos apresenta seu ponto de vista:
O SURFE E O SURFISTA
Flávio: “Eu acho que o surfista ficou muito mais consciente do seu papel como competidor. Antes tinha muito bicho louco, que bebia pra caramba, saía da água bebendo, fazia confusão porque achava que tinha roubalheira. Em termos de surfe, o que mudou foi radicalidade. Aí você vai dizer ‘mas o que mudou?’. O atleta ficou um galo, não que os outros não fossem, mas ele ficou muito mais preparado fisicamente, tem muito mais treinamento na parte física, técnica, enfim, funcional”.
Xandi: “O surfe era um esporte que sofria certa discriminação e hoje é um esporte nacional, o Medina e o Mineiro são celebridades no Brasil. O surfe alcançou finalmente seu espaço nas olímpiadas, vai estar representado no Japão, em Tóquio. Ou seja, muita coisa mudou, nesses 30 anos o surfe caminhou a passos largos, a ponto de nós conseguirmos colocar o surfe nas olimpíadas e termos dois campeões mundiais”.
PRANCHAS
Flávio: “As pranchas diminuíram muito. Com o mar um pouco maior os surfistas caíam na água com uma prancha 7 pés, 7’2, 6’8, 6’6. Hoje esse tipo de prancha praticamente não existe mais. Até em Sunset, que é uma onda de volume de água muito grande, que se caía em competições com pranchas 8’0, 7’6, 7 pés, hoje os atletas do CT competem com a mesma prancha de onda pequena. As pranchas também evoluíram em colocar para o atleta a flutuação que ele precisa pra quando ele for entrar na onda, não imbicar. A gente percebe que a técnica hoje é muito mais apurada nesse sentido, a prancha menor permite isso pra quem rema bem. Pra quem rema mal, despenca numa onda maior, pra quem rema bem, não, pois ele tem a confiança e a técnica suficiente pra mesmo fazendo um freefall, aguentar na base e a prancha fazer o que precisa ser feito numa onda um pouco mais volumosa. A tecnologia das pranchas conseguiu cobrir esse gap. Então o surf virou muito mais veloz e virou muito mais radical”.
LONG JOHN
Flávio: “Eu sou da época que a gente entrava na água com camisa de gola olímpica, aquela camisa virada no pescoço, de lã, porque não tinha roupa de borracha. Aqui no Sul tinha que importar, enfim, a gente não sabia como importar, era muito difícil. Eu comecei a surfar antes de a Mormaii ter entrado no mercado, e claro, depois disso entrou a Mormaii aqui no Brasil e vieram outras marcas e a gente conseguiu importar roupas. Mas de 86 pra cá, as roupas se tornaram mais flexíveis, mais leves e mais vedadas, mais bem vedadas. Então o surfista hoje compete com um long john que praticamente ele está sem roupa, não está travado, com uma roupa pesada e de pouca elasticidade. Essa que é a grande mudança”.
JULGAMENTO
Flávio: “Em 86, a gente teve Matt Archbold, que era um cara que dava aéreo, fazia muitas manobras que hoje estão sendo executadas, já fazia naquela época, mas o julgamento não estava voltado para este tipo de interpretação. Em 86 o julgamento era baseado em quem pegasse as melhores e mais longas ondas. Agora, o julgamento é baseado em quem faz as manobras mais radicais com mais controle, não importa a distância. Antes a distância entrava muito em consideração. O pessoal do corpo técnico ficou muito forte, muito profissional. Hoje você vê que os juízes têm o replay da bateria, eles assistem, junto com o head judge. Claro que existem, às vezes, reclamações, mas muitas vezes não tem sentido. São baterias difíceis que acontecem, algum ganha e o outro perde, tem gente que não gosta de perder”.
TECNOLOGIA
Flávio: “O avanço da tecnologia ajudou muito, primeiro porque os juízes têm a opção de rever a onda e reavaliar. Eles têm a chance de reavaliá-la de forma mais profunda, em grupo, onde eles conversam entre eles e depois colocam a nota definitiva no monitor. Também, diga-se de passagem, o sistema de computação da Beach Byte entrou no circuito através do Hang Loose em 86, e hoje faz o webcast. Então quem acompanha pela internet, pelo celular a nível mundial, é uma empresa brasileira que faz o sistema de computação e também o sistema de cobertura web”.
PÚBLICO
Flávio: “No domingo da final do Hang Loose de 86 todo mundo veio para ver a final. Digamos que 80% da galera na praia estava virada pra água, o tempo inteiro, de pé. Era uma arquibancada natural onde não dava pra sentar. Na quarta-feira (02) tinha um monte de guarda-sol, muita gente vendo as baterias, mas você não tinha aquele aglomerado de pessoas viradas para a praia o tempo todo. Mas eu acho que essa edição deve bater o público, até porque tem as redes sociais, mais meios de comunicação, existe mais gente no planeta, mais gente surfando, então essa é uma das tendências muito fortes”.
Xandi: “Em 86 tinha mais gente na praia e menos carros. Em 2016 tinha muito carro. Em 86 era uma etapa do WCT, nenhum QS no Brasil teve um público desse. Esse foi o maior público em um QS no Brasil. Naquela época, o Hang Loose era um CT, então a comparação é desleal, mas mesmo assim eu fiquei impressionado (com o trânsito). O que foi aquilo? (risos)”.
ÍDOLOS
Flávio: “Hoje o Brasil tem vários ídolos. Filipinho Toledo, Mineirinho, Gabriel Medina. Você gosta do quê? Mais salgado, doce? Ou você gosta de mais alto ou baixo? Ou mais magrinho? Agora têm opções pra você torcer. Antes a gente só torcia por gringos. Hoje você que está lendo essa matéria é muito felizardo de poder ir à praia ou poder acompanhar no seu celular um brasileiro com reais condições de ganhar qualquer etapa ou o título mundial. Eles viraram os nossos ídolos, uma galera de 20 anos. É muito legal a gente ter lá os nossos 50 anos e torcer por um de 20”.
Xandi: “Há 30 anos a gente não tinha ídolos brasileiros a nível internacional, nós torcíamos pelos gringos, pelo Shaun Tomson, pelo Mark Richards, pelo Dave Macaulay, que ganhou o evento de 86, pelo (Mark) Occhilupo, enfim. Esse ano todo mundo estava torcendo pelos brasileiros. Hoje nós temos dois campeões mundiais, isso é uma mudança significativa”.
Foto: Marianna Piccoli
Matéria para o Jornal Drop
Deixe um comentário